Entrega oficial do selo reuniu rendeiras, instituições parceiras e comunidade para celebrar o reconhecimento de um saber-fazer centenário e abrir novas perspectivas para o artesanato baiano.
A sede da Associação dos Artesãos de Saubara, na Bahia, foi palco de uma celebração especial no dia 25 de setembro de 2026. Rendeiras, representantes de instituições públicas, pesquisadores, estudantes e moradores da comunidade se reuniram para acompanhar a entrega oficial do selo de Indicação Geográfica (IG) da Renda de Bilro de Saubara, reconhecimento concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 12 de agosto de 2025, na modalidade Indicação de Procedência.
A conquista reconhece a relação entre o artesanato e o território onde ele é produzido. Em Saubara, a renda de bilro é muito mais que uma atividade artesanal: é um saber-fazer centenário, transmitido entre gerações, especialmente por mulheres que encontram nessa tradição uma fonte de renda e uma forma de preservar a história e a identidade cultural da comunidade.
A técnica consiste no entrelaçamento de fios com o auxílio de pequenas peças de madeira chamadas bilros. A partir de diferentes movimentos e combinações, as artesãs criam peças com variados desenhos e padrões. Muitas dessas mulheres também são marisqueiras e conciliam as atividades para garantir o sustento da família. O trabalho das rendeiras de Saubara já conquistou espaço em mercados nacionais e chegou a mais de 20 países.
A entrega do selo foi realizada por Viviane Gomes Almeida, representante do INPI na Bahia, e recebida por Maria do Carmo, mestra artesã da Associação, junto às demais rendeiras. Um dos momentos mais simbólicos da cerimônia foi a aplicação do selo em uma peça artesanal, gesto que representa a possibilidade de identificar os produtos vinculados à Indicação Geográfica e destacar sua origem.
O encontro contou com a presença de representantes do IFBA, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), do INPI, da Prefeitura Municipal de Saubara, de setores municipais de Cultura e Meio Ambiente e da Coordenação de Fomento ao Artesanato da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia (CFA/SETRE). O Sebrae também participou como parceiro. A programação teve exposição de peças produzidas pelas artesãs, apresentação audiovisual sobre Saubara, conversa sobre o significado da IG para o município, pronunciamentos de autoridades e apresentação da Filarmônica Corpo Musical Filhos de Saubara. A ocasião também marcou os 27 anos da Associação dos Artesãos de Saubara.
A emoção tomou conta de outro momento da cerimônia, quando a artesã Diana Felix destacou a importância da participação de todas as associadas e conduziu a leitura de um compromisso coletivo com a proteção da Renda de Bilro, a preservação dos conhecimentos tradicionais e a valorização das mulheres que mantêm essa prática viva.
A mestra artesã Dra. Maria do Carmo também compartilhou a emoção de ver realizado um sonho que, durante muito tempo, parecia distante. Em seu depoimento, ela destacou que o reconhecimento representa não apenas uma conquista pessoal, mas também uma alegria para toda a comunidade. “Esse selo de Indicação Geográfica é uma coisa que aconteceu na minha vida, que eu tanto sonhei e pensei que um dia não ia ser realidade. Mas, graças a Deus, aconteceu da maneira mais linda que eu imaginava. Quando eu pensava em sair de Saubara, eu não queria sair. Eu queria que o pessoal viesse a Saubara, e foi o que aconteceu. Todo mundo aqui está feliz da vida, recebendo
vocês, que nos dão o prazer de ver esse selo, que não emociona só a mim, mas toda a minha comunidade. É muita emoção, e Saubara está feliz com esse selo. Graças a Deus! E eu tenho vocês para me dar esse prazer, essa alegria desse selo. Ô, gente! Ô, glória! Muito obrigada, meu Deus! Muito obrigada! Que Deus nos abençoe e nos dê força e coragem para a gente prosseguir fazendo sucesso, não só a mim, mas à minha comunidade. Sou muito feliz com isso!
A conquista da Indicação Geográfica foi resultado de um trabalho construído ao longo dos anos, com a Associação dos Artesãos de Saubara no centro do processo e a colaboração de instituições de ensino e pesquisa. Os primeiros estudos contaram com a atuação da professora Dra. Ângela Machado Rocha, da UFBA, e tiveram continuidade com a participação de pesquisadores do IFBA. Em 2024, foi publicado o estudo “Renda de Bilro de Saubara-Bahia: análise do potencial de Indicação Geográfica”, que contribuiu para fundamentar o pedido de reconhecimento. O Sebrae também apoiou o percurso, com ações de capacitação e fortalecimento da associação.
Depois da concessão do registro pelo INPI, o desafio passou a ser estruturar as condições para que a IG seja incorporada ao cotidiano da produção e da comercialização. É nesse contexto que o IFBA desenvolve o projeto “Fortalecimento e Incubação da Indicação Geográfica da Renda de Bilro de Saubara (BA): Consolidação Empresarial e Expansão de Mercados”, aprovado no Edital nº 12/2025 do Programa de Desenvolvimento de Indicação Geográfica, vinculado à Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (Setec/MEC). A iniciativa envolve professores, estudantes, pesquisadores e colaboradores externos.
A coordenadora do projeto no IFBA, Prof. Dra. Catarina Silveira, explica que o trabalho busca apoiar a Associação na consolidação da Indicação Geográfica e na construção de novas oportunidades para as rendeiras. Entre as entregas previstas estão seis produtos técnicos: Manual de Comercialização, Protocolo de Controle de Qualidade, Plano de Marketing Digital, Guia de Governança Associativa, Modelo de Negócio Canvas e Rede de Parcerias Articuladas.
Segundo Catarina, a expectativa é que essas ações contribuam para ampliar as vendas, tanto em espaços físicos quanto pela internet, reduzir a dependência de intermediários e fortalecer a presença das artesãs em feiras e outros espaços de comercialização. A proposta também contempla o uso de ferramentas como Instagram, WhatsApp e catálogos digitais para divulgar o trabalho, além de iniciativas de turismo cultural que aproximem os visitantes da tradição local, como experiências ligadas à Casa das Rendeiras. Outra possibilidade é explorar novas aplicações da renda de bilro em peças de decoração, acessórios e vestuário, sem descaracterizar as técnicas tradicionais.
O uso do selo também exige atenção. As artesãs e a Associação precisam seguir o Caderno de Especificações Técnicas, documento que estabelece os critérios para a utilização da Indicação Geográfica. É esse cuidado que garante que a identificação seja aplicada aos produtos que atendem às condições definidas, preservando a credibilidade do reconhecimento.
Com a Indicação Geográfica, a Renda de Bilro de Saubara passa a contar com um instrumento de valorização de sua origem e reputação. Para as artesãs, o reconhecimento também representa a possibilidade de ampliar o alcance de seu trabalho sem perder aquilo que o torna único: os conhecimentos transmitidos entre gerações e a relação com o território onde essa tradição permanece viva.